É simples não é? Você ama, mesmo sabendo isso vai em algum momento fuder contigo, mas fuder tão completamente, que quando acabar você não vai conseguir andar e nem articular alguma palavra de consolo, talvez um pensamento débil, mas isso é apenas um talvez. Então é isso? Você se isenta da responsabilidade, fazendo de conta que o amor é um caminhão desgovernado que cruelmente te atropelou e fudeu com a sua cabeça? Pode falar isso também, não vai fazer diferença, nunca faz diferença de porra nenhuma, sabe por que? Não, você não sabe...
A boêmia
- Lie
- Ah, eu? Tonta por uma cidade pequena demais, em um pais pequeno demais, porém o mundo me dá medo.
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Papo de msm, 10:00 da matina de um domingo qualquer.
Sibby diz:
preciso fazer umas coisas
pq tu ta direto no msn agoraa?
e pq fica caindo toda hora?
Lie and Lie diz:
estou direto no msn por que sou uma puta desocupada que não tem porra nenhuma pra fazer e vive caindo por que a internet daqui sempre cai toda hora!
Sibby diz:
mas vc sempre foi uma puta desocupada e só tá no msn esses dia
Lie and Lie diz:
Deve ser por que agora sou uma puta desocupada e carente!
como assim eu SEMPRE fui uma puta desocupada?
Sibby diz:
AHAHAHAHAHAHHHAHAHAHA BRINCADEIRA
Sibby o que eu faria sem você??
Lúcia me convida pra uma dessas boates escuras, onde as pessoas transam encostadas nas paredes, faço um pouco de doce e aceito, mesmo sabendo que a idéia é ruim, a Lúcia no geral é uma idéia ruim, mas nunca tenho nada melhor pra fazer do que me sujar com ela.
***
Como era de se esperar a música é uma merda, nada mais do que uma batida repetida e sem nexo, as pessoas devidamente bêbadas e drogadas, se esfregam ao som da enorme sala piscante, entorno o copo que Lúcia tinha abandonado na minha mão, ela pula como uma desvairada, ao ver o copo seco desaparece e volta com drinks de cor indefinida.
- Um brinde!- ela propõe com um sorriso quase perfeito.
- A que?- pergunto aos berros.
- Você e eu!
É o bastante para que eu a tome nos braços, o beijo é rápido, só o bastante para sentir a lingua da Lúcia e pensar na inútilidade daquela noite.
***
Entro no banheiro tropeçando em pernas alheias, a madrugada corre veloz, chega a lembrar um carro desgovernado e sem controle, me ajoelho de qualquer jeito sujando minha calça e vomito no vaso encardido, só consigo pensar em uma coisa nessas horas: "O que porra estou fazendo aqui?" Nunca encontro uma resposta digna ou aceitável. Me encaro no espelho, a maquiagem borrada como sempre, eu parecendo um guaxinim assustado, o nó na garganta me impede de respirar, a raiva vem de mansinho e explode em forma liquida, as lágrimas borrando ainda mais o que deveria me embelezar, saio do banheiro a mil, encontro Lúcia se esfregando em uma garota qualquer, a puxo pelo braço:
- Já deu Lu!
- O que já deu?
- Você, eu e essa porra toda!
Ela me encara compreensiva, acaricia meu rosto com a ternura que ela só tem quando necessário. Me leva pra casa, me dá banho, cozinha pra mim, lê em voz alta meu livro predileto, atende os telefonemas, anota meus recados, pinta meu mundo de cor de rosa, até se cansar e com voz mole pedir:
- Vamos naquela boate que inaugurou?
A encaro vencida:
- Vamos!
A dor é meio mal humorada agora, nem sequer aceita um cigarro, copo de vodka então de jeito algum, deve ser dotada de escrupulos essa minha dor ranzinza e calada. Escreveria uma carta pra ela agora, diria coisas doces que a fariam sentir ainda mais pena da babaca aqui, faria uma tatuagem com o nome dela, gritaria mil vezes a frase clichê e estúpida dos amantes, beberia fel, me jogaria de um prédio em chamas, a minha dor ameaça sorrir, só não sei se é de mim ou para mim, mas acho que isso não importa, isso nunca importou.
Se ela estivesse aqui agora eu diria de maneira dramática: "O único refúgio serias tu!" ela daria aquele meio sorriso torto, que eu amo e diria que eu vivo muito bem sem ela, obrigada e isso só tornaria tudo ainda mais patético.
Minha boca tem um gosto amargo, os olhos pesam, me encolho em um canto qualquer dessa casa enorme e ainda mais vazia desde que ela se foi, acendo um cigarro totalmente desajeitada, minhas mãos tremem tanto que não consigo segurar o maldito hollywood que cai, a dor me comprime, sinto uma angústia tão concreta no peito que parece que vou desistir de respirar a qualquer momento.
A minha dor, fantástica em momentos criticos como esse, apenas me encara com um misto de pena e crueldade, não acaricia meus cabelos como julguei que faria, nem me oferece colo, não faz nada, assiste parada a minha ruína, assiste impássivel a minha destruição quase completa, até que resolve falar:
- Sabe qual é o teu maldito problema Natalie?
Nego com a cebeça, olhar desvairado, perdida pra caralho em qualquer lugar.
- Tu quer uma coisa que não existe!
A observo sem interesse e digo ainda mais desinteressada:
- Vai te foder!

Confesso; vendi minha alma quando vesti aquela blusa e me fitei no espelho,algo como uma segunda pele, ela era perfeita, moldava delicadamente meu corpo e me deixava com um quê de SUPER-MODELO. Não deu outra, me apaixonei de cara pelo meu próprio reflexo, fiquei completamente sem ar assim que esbocei um sorriso, não aquela não poderia ser eu, acho vaidade uma coisa meio inútil, ainda mais nos últimos tempos, nunca estive tão descuidada, ando pra todo lado de havaianas ou então de tênis, me visto com camisões masculinos e há séculos não sei o que é um mero pozinho no rosto, tudo aquilo caiu por terra naquele exato momento.
Quando experimentei a maldita calça da tal Calvin Klein, quase tive um orgasmo de tão linda que ela era, macia, terna, o contado do jeans era uma caricia irresistível, tive medo de me encarar no espelho, continuava com os olhos voltados para o chão namorando com a calça dona de meus suspiros, meio tímida levantei a cabeça com cuidado para me ver... Dei um gritinho extasiado, junto com um salto de pura satisfação, rodopiei alegremente em volta de mim, corri do provador com o sorriso mais desvairado que a minha boca permitia e disse triunfante pra vendedora que me atendia:
- Aceita Visa?
Ele abria e fechava a boca monotonamente, continuei pintando as unhas de vermelho, o cigarro abandonado no canto esquerdo da minha boca, Flávio gesticulava freneticamente como que desesperado por atenção, eu tragava lentamente fazendo o possível pra não borrar minhas unhas e nem ter que ouvir seu dramalhão de merda, aquilo me cansava, a paixão me cansa, me enerva ver o servilismo imbecil tomando conta das pessoas apaixonadas, o brilho irritante nos olhos e os inúmeros de eu te amo, escutar aquilo não passava de uma tortura, uma brincadeira fodidamente sem graça, um musical falido que eu era obrigada a ouvir.
Fitei intensamente minhas unhas pintadas, Flávio explodiu:
- Porra, Natalie está me ouvindo?
O encarei entediada e sussurrei de maneira cínica:
- Não, deveria estar?
Ele resmungou algo incompreensível, retirou o cigarro da minha boca, o amassou e deixou que caísse no tapete.
- Qual é o teu problema, heim?- quis saber ele com um ar cansado.
Ajeitei meu corpo na cadeira e sorrindo perguntei:
- Por que tu gosta de mim?
- Tem que ter um por quê?
- Claro, afinal eu sou exatamente assim, não te escuto, não te beijo e nem sequer te suporto, está mesmo assim tão carente de atenção, ainda que ela não exista?
Ele me encarou com o irritante brilho apaixonado nos olhos:
- O coração tem razões que a própria razão desconhece!
Não pude deixar de rir com aquilo, deve ser por isso que odeio essa estória de paixão é só uma desculpa estúpida para as pessoas perderem a vergonha na cara e se isentarem de culpa, não posso perdoar quem se isenta de culpa, mesmo tendo usado esse mecanismo inúmeras vezes não posso me permitir cair em qualquer armadilha do tipo, não posso e não vou por isso mesmo levanto, beijo a testa do homem que supostamente me ama pra toda a vida e venho pra esse blog descarregar, explicar e disseminar minha total incapacidade de confiar em sentimentos, principalmente os de cunho amorosos.