E daqui pra frente, será assim meu amor, tudo que eu não falei é pra você, assim como todos os gestos de infantilidade desvairada são seus, os porres memoráveis, as noites insones e as de sexo desesperado com pessoas cujos nomes não me recordo, a meia garrafa de vinho barato, as poesias medíocres de dar dó, o medo brutal da solidão, os sapatos sujos de lama, tudo isso é seu, eu sei, meu legado de ruína e amor incondicional não chocam os teus olhos transparentes, pode renegar a sua herança, fazer de conta que nunca me conheceu, fazer de conta que a tua língua não cortou meus pulsos e não verteu meu sangue até a última gota.
É tudo seu, por que depois de você, já não sou capaz de sentir nada, você me desligou da realidade e tudo que consigo esboçar é um retrato infiel e tênue da minha existência devastada, depois de você eu já não sonho, já não procuro, nem sequer sofro, você me transformou em uma boneca orgânica despida de qualquer busca inútil de felicidade barata.
Aqui expresso meu agradecimento e entrego de bom grado, tudo o que restou de mim, faça bom proveito.
(Testamento de uma idiota que achava lindo morrer de amor)
A boêmia
- Lie
- Ah, eu? Tonta por uma cidade pequena demais, em um pais pequeno demais, porém o mundo me dá medo.
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"Chega de declarações paliativas e insignificantes, você sabe muito bem o que significou para mim, sabe da navalha que utilizei para separar você de um objetivo, sabe de tudo e isso só torna as coisas inúteis."
Penso nisso enquanto esmago a ponta de um cigarro no balcão, o garçom me olha torto, reclama sem vontade:"Isso vai deixar uma mancha". O encaro divertida, no fim tudo acaba se tratando de manchas não é verdade? Você, eu, o garçom, esse blog raso e a minha paixão constantemente devastadora e igualmente rasa.
Manchas, baby é disso que estou falando, seja em sofás, tapetes, paredes ou lençois de motel, elas existem para assegurar a existência tênue de qualquer situção concreta (ou não). Embora você também já saiba disso...
“- O que vai ser?
A garçonete loira e provavelmente gostosa crava os olhos em mim a espera de uma resposta coerente e prática, passo a língua nos lábios tento ganhar tempo, observo se minhas unhas estão bem feitas e disparo sem piedade:
- Todos os seus cabelos são dessa cor ou a moça só tem grana pra pintar os da cabeça?
Ela ri meio debochada:
- Assisti a porra desse filme e não vou te mostrar minha buceta!!
- Uma garota pode ter esperanças!!- concordo com um singelo sorriso- me dá qualquer coisa coberta de queijo e uma cerveja!
Antes de ir ela chega perto e sussurra no meu ouvido:
- Saio as onze...”
Aí eu pergunto, tem como não gostar de filmes brasileiros?
Obs: Filme amarelo manga.
Obs²: No último post esqueci de mencionar palhaços!!
Ex-detentos, garis, viciados, traficantes, flanelinhas, primos de 1° grau, caras que não tomavam banho, alcoólatras, pederastas, mendigos, esquizofrênicos, compulsivos sexuais, gays, travestis, evangélicos, judeus, sociopatas, mulçumanos, colegiais, aposentados, taxistas, peões e frentistas.
Ela não descartava nenhum, podia-se ouvir madrugada adentro gemidos insanos e gritos desesperados, tapas e insultos que aos olhos dela, podiam se transformar nas coisas mais excitantes do mundo. O cheiro de sêmen, suor e perfume barato invadiam minhas narinas como em um estupro, me fazendo repudiar ainda mais todos aqueles homens e suas ditas “necessidades” pútridas e seus desejos grotescos, me sentia presa em um circo dos horrores, observando de olhos fechados com asco a pressuposta mulher dos meus dias, metamorfoseando-se em um pesadelo noir de quinta categoria e baixo orçamento.
Obs: Qualquer semelhança com pessoas reais é “mera” coincidência.
Isso é entediante! Sabe essa coisa de “amor da minha” ,“não vivo sem você” e o pior: “eu te amo”. As pessoas parecem tão certas quando dizem isso (a quem quer que seja) passei séculos acreditando piamente na pureza desses termos mentirosos e pérfidos, séculos alegando o desespero passional de não poder ou saber viver sem determinada pessoa, séculos jurando mentiras em nome de paixões débeis, séculos trepando e acreditando que estava fazendo “amor”.
Senhoras e senhores, agora eu pergunto: Qual é a razão dessa merda toda? Os supostos apaixonados amam puramente em função própria, para enaltecer a ação simplória de viver em função de um ser (quanto pior o ser, maior a paixão e por sua vez maior o egoísmo do suposto apaixonado)
Exemplo clássico é aquela nossa amiga que acaba de descobrir (como se ela já não soubesse) que o homem da vida dela (outro termo detestável) é um cretino, qual é o discurso dela? “Eu fiz TUDO, por ele!”. Minha filha por algum acaso ele pediu o seu sacrifício absoluto? No máximo te fez uma dúzia de promessas ridículas, e você minha querida acreditou única e exclusivamente por que, quis mostrar para todos inclusive você mesma que sim, conseguiu o grande amor da sua vida como pregam aqueles contos estúpidos que lêem (para nossa desgraça) quando somos crianças.
O que existe então? Sexo, costume, egoísmo, tédio, autopromoção...
Como diria o Nietzsche: “Amor é a expressão mais natural do egoísmo.”

Olhei para baixo, olhos enfim secos, o coração dividido em exatos 3.000 pedaços inconstantes, as pessoas olhavam para mim com expressões tão desesperadas, que tive de sorrir por uns breves segundos. Pessoas adoram uma tragédia, não é? Ao vivo então ganha um bônus de desespero concreto e possivelmente mais verdadeiro que os outros, já há alguns meses me obcecava a idéia de me jogar do 10° andar, plano idiota eu sei, de qualquer forma, era um plano quase poético de salto para a morte certa; imaginava o vento fazendo uma última caricia em meu rosto durante o salto, meus cabelos em adorável desalinho se misturando ao sangue que por certo sairia do meu crânio esmagado, um quadro perfeito, bonito demais para ser dispensado em nome de uma vida qualquer, em nome da minha vida.
Enquanto imaginava o melhor jeito de pular, brinquei de distinguir as pessoas lá embaixo, e não é que ela estava lá? Com a mesma expressão de desespero dos demais, tive de sorrir novamente, ela nunca demonstrava desespero, exceto diante de uma barata, sempre pedia com os olhos marejados e aos gritos que eu desse um jeito no abominável mostro de 3 cm, mas isso foi antes, bem antes do 10° andar ter tanta importância, antes da minha queda se transformar em redenção total de uma vida incompleta e desnecessariamente vivida, antes da descoberta de uma paixão ilusória e mesquinha, que eu ingenuamente alimentava em prol da minha suposta bondade, não importava mais, nenhuma concepção errônea de meus atos falhos poderia explicar o vazio estático da falta de um motivo, um motivo auto-suficiente que justificasse aquela vida rasa e mentirosa , não quando meus pés se apoiavam na amurada e eu sentia meu corpo mergulhar...
Não existem maneiras seguras de ser completamente feliz, existem? É tudo focado em algum motivo, algum combustível que te faça perder tempo e energia com algo totalmente sem sentido, como levantar da cama todas as manhãs e achar isso completamente plausível.
Por que se preocupar tanto com essa coisinha chamada felicidade, quando na verdade ela é que ferra completamente com a nossa vida? Meus dias tem sido uma sucessão besta de horas vazias por que eu quero, por que as horas vazias são completamente seguras, te impedem de cair em qualquer história mentirosa, que vai te destruir quando na última frase aparecer a palavra FIM.
Então funciona de um jeito tão simples que chega a dar dó, assisto minhas aulas da UFMA com cara de quem tá amando, almoço como se estivesse de fato sentindo o gosto da comida, assino minha presença no projeto de extensão, como se eu soubesse exatamente o que fazer, sorrio de piadas bestas e ouço Vanguart encolhida em um canto escuro qualquer. Essa é a minha sucessão de horas seguras, quase que uma rota de fuga, mas quem não está fugindo, não é?