Todos foram embora, é mais ou menos isso que eu sinto sabe?? É um deserto meio fodido...
A boêmia
- Lie
- Ah, eu? Tonta por uma cidade pequena demais, em um pais pequeno demais, porém o mundo me dá medo.
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Fico achando que cabelos negros como o ébano e longos como as unhas do Zé do caixão, parecem cabelos de elfos ou de anjos, não consigo definir ao certo a sutil(?) diferença entre os dois, não importa muito, esses anjos/elfos apenas passam e por um segundo fazem do meu mundo medíocre um lugar habitável e que não me causa ânsia. Sobra essa vontade gritante de ser qualquer pessoa, um desejo urgente de não ter a garganta sempre apertada e lágrimas a espreita, vejo e me reconheço agora sem máscaras, uma pessoinha idiota cheia de opiniões pretensiosas e achismos ridículos, é meus queridos escrotos de merda, eu peço socorro mas não sei qual nome gritar, nem sequer sei se existe um nome a ser pronunciado... Talvez longe daqui, longe dessa necrópole fantasiosamente pornográfica repleta de ausências dissimuladas; e se eu embelezo tudo, não é por estilo, é por desespero meus caros, estou DESESPERADA e ter ciência disso não ajuda em caralho nenhum , apenas me torna mais perdida, inútil, ébria, infinitamente inadequada e cheia de elfos/anjos a me atormentar, como Erínias vingadoras empenhadas em um tormento besta de dar dó!
P.S: Escrito durante a aula de estudo dos usuários da informação.
Tenho que te dizer uma coisa, não é nada bacana você aparecer de madrugada comer toda a minha nutella e chutar meu cachorro, depois me acorda com seus discursos niilistas de fim de feira e me arrasta pra qualquer sarjeta, essa rotina cansa, na verdade tô sem saco, isso meu amor, prestes a mudar de continente para poder fumar meus cigarros em paz.
Lembra da última sexta? Você vomitou no meu tapete persa (vá lá, falsificado, mas ainda sim meu!) fez um furo no meu lençol predileto e declamou Camões a plenos pulmões madrugada adentro...
Não é reclamação, juro que não, na verdade é mais pra uma declaração do quão puta você me deixa e do quanto que eu amo você... E o quanto isso é desnecessário visto que você não vai ler.
P.S: A Nutella sempre vai esperar por você!

Tiro a blusa devagar, jogo em direção a janela, ele ri.
Trago o cigarro com vontade, rodopiando nua pelo quarto, ele aplaude entusiasmado, jogando a camisa no ventilador sujo de poeira, aquilo era tão e tão óbvio, mas ainda sim divertido, me livro da calça jeans com habilidade, jogando a calça pela janela e sorrindo como uma lunática...
- Tem certeza?- Alvaro torna-se de súbito sério, tira o cigarro de minhas mãos e observa a fumaça com um sorriso sinistro, tiro o soutien com apenas um gesto, digo de uma vez:
- Tenho! Vai dar uma ótima matéria nos jornais, não acha? vamos ficar famosos, vamos virar deuses!
Ele explode em uma gargalhada débil.
- Não, deuses não...
Subi na cama, rodopiando sempre, peguei a garrafa de vodka e gritei com toda a força que meu pulmão ainda possuia:
- Eu te amo!
Ele tirou a calça jeans, pulou na cama, me beijando com o desespero tipico de quem já não possui tanto tempo, o envolvi com meus braços, sentindo a paixão maluca que a gente sentia, as mãos dele acariciaram gentilmente meus seios, enquanto a sua boca percorria o meu pescoço, o afastei e o encarei com toda a intensidade que conseguia reunir em um olhar apenas, Alvaro beijou minha testa, me mostrou o isqueiro, entendi o recado, tirei o galão de gasolina debaixo da cama e despejei o conteúdo pelo quarto.
Alvaro me observava gargalhando.
- Algum cara não dizia que o amor é fogo que arde sem se ver? Ele com certeza, nunca imaginária um troço desses!
- Vamos ficar juntos pra sempre, tipo Romeu e julieta! Com a diferença de que eles nunca existiram!
Esvaziei o galão, como em uma dança e me joguei na cama, estendi os braços pra ele, sorri de maneira cruel.
- Vamos querido?
Ele acendeu um cigarro, tragando apenas uma vez e o jogando em uma cadeira que prontamente ardeu em chamas, pulou em cima de mim gritando:
- Vamos!!
Enquanto o quarto se transformava em um inferno, Alvaro segurava minha mão e baixinho declamava:
-Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

Enfrentar 200 milímetros de chuva, completamente ébria e saindo de uma boate gay, não é fácil, ainda mais quando o objetivo principal da aventura não se dignou a ir; o deus da minha religião que sempre aparece semi nu e servindo tequilas com um divino e implacável sorriso, estava de folga, uma noite perdida cujo altar de minha orações se corrompia ao som de outras preces e outros deuses que em absoluto não detinham a minha fé.
Minha vida de agnóstico amargo e vazio terá acabado? Pregarei em praças públicas com absoluta convicção o dom imensurável da sua beleza ou a certeza suprema do prazer contido em seus braços??
Esperem mais fins de semana para a concretização do meu recente fanatismo religioso, por conta do barmen mais lindo do mundo!!
Sim, eu te cubro com histórias que jamais existiram, te chamo de nomes que você nunca ouviu, milhões de beijos sem lábios, milhões de abraços sem braços. Acho que te devo desculpas, é acho que devo te pedir desculpas, por te inventar tão completamente e esquecer que você não é um dos personagens dos meus livros e séries, por esquecer que nosso amor eterno, só é eterno na minha cabeça criativa e boba.
E eu corro no escuro segurando a tua mão, esquecendo que na verdade estou sempre correndo sozinha, não, isso não é triste é apenas um fato, contra os fatos existem argumentos? As pessoas me cansam, porque você não me cansa também? E porque não me concede a dádiva de criar vida? Eu seria mais dedicada do que Pigmalião e você sabe que é verdade!
Será que eu não consigo viver sem dramas?
A chuva deixaria tudo mais poético, pena que não estava chovendo. Ele uma vez falou que eu poetizava as coisas, talvez seja esse o meu problema, a vida real não pode bastar? Deveria, mas isso é outra história...